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A concepção de um programa brasileiro para busca automatizada de supernovas data de 2001, por iniciativa dos astrônomos amadores Cristóvão Jacques e Tasso Napoleão, ambos engenheiros com formação astronômica, respectivamente, na UFMG e USP. Subseqüentemente, iriam se juntar ao grupo dois outros membros - Eduardo Pimentel (em Belo Horizonte) e Carlos Colesanti (em São Paulo), formando o grupo responsável pelo projeto BRASS (Brazilian Supernovae Search), inicialmente conhecido como CEAMIG-REA Supernovae Search (CRSS). Como curiosidade, os nomes CEAMIG e REA são as siglas das duas entidades parceiras no projeto - respectivamente o "Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais", fundado em 1954, e a "Rede de Astronomia Observacional", fundada em 1988. A expressão "Supernova Search", por outro lado, é praticamente um padrão entre grupos similares no âmbito mundial. O programa BRASS passou a ser efetivo em junho de 2004, e até fins de março de 2005 já havia descoberto seis supernovas austrais (SNe 2004 cw, 2004 cz, 2004 ew, 2005 af, 2005 al e 2005aw). Este texto pretende abordar, em linguagem essencialmente não-técnica, as principais características de nosso projeto.
MotivaçãoEm fins do ano 2000, contavam-se em todo o mundo vinte e três grupos (amadores ou profissionais) dedicados à busca de supernovas (ref 1). Desse total, entretanto, dezoito grupos se encontravam no Hemisfério Norte, e apenas cinco no Hemisfério Sul. Por outro lado, ao se examinarem as estatísticas da distribuição de supernovas extragalácticas por sua declinação (ref 2), o resultado mostrava claramente uma deficiência de descobertas nas declinações austrais, da ordem de dez a quinze supernovas por ano, se considerada a nossa magnitude-limite instrumental (da ordem de V=17). Obviamente, não existe nenhum motivo razoável para supor que as galáxias austrais apresentassem taxas de ocorrência de supernovas inferiores às de suas contrapartidas boreais. Assim, a conclusão evidente é que, embora as supernovas austrais ocorressem em taxas semelhantes, um bom número delas simplesmente passava despercebida por falta de um número adequado de observadores. Esta foi nossa primeira motivação para o projeto.
A segunda decorre diretamente da importância científica do trabalho com supernovas, particularmente as do Tipo Ia como indicadores de distância e, na forma geral, para a melhor compreensão dos fenômenos relacionados aos estágios finais de evolução estelar. A possibilidade de um trabalho conjunto e harmonioso entre as comunidades profissional e amadora, finalmente, representou um terceiro fator de motivação para o programa.
PlanejamentoDesde os estágios iniciais do projeto, ficaram claros quais eram os dois fatores de sucesso fundamentais para qualquer programa de busca de supernovas. Particularmente, o programa até hoje mais produtivo na descoberta de SN extragalácticas (o KAIT, da Universidade da Califórnia em Berkeley) já levava em conta esses dois fatores.
O primeiro fator estava relacionado à necessidade de automatização (e, se possível, robotização) dos telescópios dedicados à busca. Naturalmente, isso queria dizer que softwares e scripts específicos deveriam ser desenvolvidos, considerando as características de nossos equipamentos e procurando otimizar o ritmo de imageamento para maximizar as probabilidades de descobertas.
O segundo, à construção de um catálogo otimizado de galáxias que levasse em conta os diversos fatores astrofísicos que determinam as probabilidades de ocorrência de SN extragalácticas (tais como a massa, ou luminosidade da galáxia hospedeira; seu tipo morfológico; sua inclinação em relação à linha de visada, etc), bem como outras características que considerassem também nossas condições específicas de observação: magnitude-limite instrumental versus distância ou redshift da galáxia, seu diâmetro aparente versus nossa resolução instrumental; e, finalmente, a produtividade potencial do imageamento (número de galáxias que poderiam ser imageadas por noite).
Nossos trabalhos foram desenvolvidos paralelamente, porém de forma coordenada: enquanto Cristóvão Jacques (posteriormente auxiliado por Eduardo Pimentel em Minas Gerais e Carlos Colesanti em São Paulo) se dedicava aos projetos de automatização e robotização, bem como aos fatores de equipamento, Tasso Napoleão se dedicou à construção dos catálogos otimizados de galáxias. Em 2003, iniciamos a fase de obtenção das imagens de acervo das galáxias escolhidas com nosso equipamento, a essa altura já inteiramente automatizado. Essas imagens são usadas para o primeiro blinking que seleciona as suspeitas para análise posterior. Finalmente, em meados de 2004 iniciou-se a busca sistemática propriamente dita, que seria alavancada em setembro do mesmo ano pela robotização do Observatório CEAMIG-REA, localizado em Belo Horizonte.
Referências:(1) Chassagne, R. : www.astrosurf.com/chassagne/
(2) ISN (International Supernovae Network): www.supernovae.net/isn.htm